É o fim da picada: Calcinha Preta, os melhores do mundo

abril 27, 2011

Onde é que nós estamos? Que país é esse? Que educação estão dando à população brasileira?

Perguntas e mais perguntas atordoam a cabeça ao ler o seguinte release, abre aspas:

Calcinha Preta é eleita a melhor banda de forró do mundo Em votação promovida pelo site Terra, a banda Sergipana Calcinha Preta, que possui uma discografia de 24 álbuns e mais de 10 milhões de CDs vendidos, foi eleita melhor banda de forró do mundo.

Com 105.240 votos de leitores, Calcinha Preta venceu a banda Anjo Azul, que ficou em segundo lugar, e Garota Safada, terceiro lugar. Destaques do gênero, os músicos Bell Oliver, Ramon Costa, Silvânia Aquino e Anajara Gouveia comemoram: “Ver o nosso trabalho reconhecido é muito bom. Ganhar como a melhor do mundo, é mais do que gratificante”.

Fecha aspas.

Melhor banda de forró do mundo!!! Mais de 105 mil votos! E eles acreditam nisso. Que são os melhores! É o fim da picada.

Quem faz música de qualidade, com letras, arranjos e harmonia, que contribuem para o enriquecimento do cancioneiro nacional, como diziam os velhos escribas, é atropelado pela música apelativa, rebolativa da fuleiragem music, bandas campeãs de jabá, aceitos avidamente por emissoras de rádio e TV, concessões públicas que deveriam zelar pela qualidade da programação, mas sucumbem ao canto do ibope e as cifras de patrocinadores que não querem saber de qualidade, mas no retorno de marketing e consumo de suas marcas.

Salve Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Trio Nordestino, Silvério Pessoa, Dominguinhos, Anastácia, Siba Veloso, Josildo Sá e tantos e tantos outros que fizeram do forró um legítimo ritmo nordestino.

Que me desculpe Calcinha Preta e seus amados fãs, vocês não serão nunca a melhor banda de forró do mundo. Não do forró de verdade. Mas podem ser orgulhar de ser a maior banda de forró fuleiragem. Ah, isso sim.

Sísifo pernambucano

julho 16, 2010

Eis que está chegando a hora. No próximo dia 29, ocorrerá o lançamento de Raimundo Carrero – A fragmentação do humano. O projeto começou há mais de cinco anos e finalmente será entregue aos leitores. 

Confiram no texto de apresentação abaixo.

 Raimundo Carrero é um ser humano fragmentado e inquieto diante da vida e de suas incertezas, um Sísifo empurrando sempre para cima da colina o peso da morte. Ele bem sabe e tanto sabe que assim se definiu ao dar o título a este livro que o leitor tem nas mãos, uma obra aberta, ainda em construção, cheia de lacunas e que não se pretende definitiva. Antes, tem o propósito de ser o início de uma vereda, um caminho que leva ao encontro com o autor de uma das obras mais vigorosas da literatura brasileira da segunda metade do século 20 até os dias de hoje. E conhecendo melhor o escritor e o homem, abre janelas para se olhar mais dentro de seus escritos, onde a vida grita.

O percurso de A fragmentação do humano tem início com o projeto em
comemoração aos 30 anos de lançamento de Bernarda Soledade – A tigre do Sertão, obra inaugural de Carrero. O livro deveria ainda estar sendo escrito e atualizado constantemente, pois Carrero continua em plena atividade, embora aqui e ali dando alguns sustos em seus familiares, amigos e leitores. Entre as obras já prontas à espera de publicação estão Os deliciosos peitinhos murchos (contos) e As estratégias do narrador (técnicas narrativas).

 O talento de Carrero é reconhecido desde sua estreia e atestado pelos diversos prêmios que recebeu, sendo o mais recente o Prêmio Machado de Assis 2009, da Fundação Biblioteca Nacional, pelo romance Minha alma é irmã de Deus (editora Record 2009), honraria que já havia recebido em 1995 por Somos pedras que se consomem (vencedor também do prêmio APCA).
Obra que encerra a tetralogia Quarteto Áspero, Minha alma é irmã de Deus ganhou uma versão para o cinema (em vídeo digital) com roteiro escrito por Carrero a quatro mãos com a diretora Luci Alcântara, lançada na Bienal Internacional do Livro de Pernambuco, em 2009, da qual foi homenageado.
O reconhecimento do valor de Carrero não tornou mais fácil a publicação deste livro. Chegou a ser rejeitado em alguns editais de fomento à cultura, sendo finalmente aprovado pelo Sistema de Incentivo à Cultura do Recife, no fim do ano passado, o que permite agora o seu lançamento. O texto sofreu algumas atualizações, mas mesmo ainda já se encontra um pouco defasado, porque o Sísifo pernambucano não se rende.
Carrero disse certa vez: “a vida de um escritor é sempre de desafios, muitos desafios. Primeiro a luta contra a inexperiência, e depois a luta contra a experiência. E a obra de arte nunca acaba. Está sempre exigindo, exigindo muito, consumindo a paz”. Ele persevera, trava sua luta diária com a linguagem, não se deixa vencer pelas dificuldades nem se acomoda, pelo sucesso. “Espero ter ainda uma qualidade: a irresponsabilidade. Eu preciso ser irresponsável, urgentemente. Muita gente me julga irresponsável, descansado, mas Deus sabe o que me custa viver”.

Leituras atropeladas

maio 14, 2010

A falta de disciplina para algumas coisas das quais gosto – leitura, assistir filmes e ouvir música – e a preguiça para fazer algumas coisas para quais sou obrigado – andar, por questões de saúde, ou voltar a surfar (depois de quase dez anos) – são duas fraquezas confessas que eu tenho. Sendo assim, vou levando.

Agora mesmo, estou com leituras atropeladas. Livros que parei no melhor da história e que temo não terminar de lê-los de autores que eu gosto -Fuguet, Cabrera Infante, Dostoievski, para citar apenas três – ou que eu tenho curiosidade de conhecê-los – como Gombrowicz – se acumulam ao meu redor. No meio desta Babel, inicio a leitura de O doutor passavento, de Vila-Matas. É a primeira vez que o leio. Lembro que já me caiu nas mãos um outro livro que creio era dele, mas que não dei bolas e agora me arrependo. E já ia solto na leitura quando resolvi ler Afirma Pereira, de Antonio Tabucchi, que havia ganho de aniversário. E vou me deixando seduzir pela leitura e fico rindo com algumas coincidências. Por exemplo, estava na Itália, onde se passa parte da história de O doutor passavento, mais precisamente na região de Nápoles. De volta ao Recife, por necessidade ou curiosidade profissional, começo a ler A morte e a morte de Quincas Berro d’Água, de Jorge Amado, e assim, em camadas de leituras atropeladas vou vivendo minha aventura literária. Pensando em histórias que poderia escrever, querendo dar continuidade às histórias que estou lendo, querendo voltar aos livros que ainda estão pelo caminho e outros ainda em silêncio no quarto abarrotado de livros, discos e quinquilharias.

Amadoristicamente amador

março 31, 2010

Sinceramente, este lance de blog é pra profissional. E eu cheguei a convicção que uma parte do neguinho que escreve blog não está apenas querendo expor suas idéias, seu ponto de vista, fazer um comentário ou compartilhar alguma foto, informação, o escambau. Os profissas mesmo querem é mais visibilidade e quem sabe um dia – que pode ser amanhã, daqui a um mês ou ano, juntar tudinho e lançar no formato livro ou e-book.

A preguiça corrói, lhe consome por dentro… Esta é uma velha máxima familiar, principalmente em dias de chuva…

E foi por preguiça, descaso ou qualquer outro motivo que eu passei todo esse tempo ausente. Tentei me viciar no Twetter. Mas minha tendência à distração não me permitiu.

Confesso: morro de medo de vícios. Todos os vícios: sexo, gula, bebida, jogo, blog, Tweeter. A bondade é um vício?

Amadoristicamente amador, eis que estou de volta. Ou de passagem. Não sei? Você sabe? Compromisso pra que? Pra nada.

Tom Waits em O Hobbit

dezembro 9, 2009

Olá, saudosíssimos invisíveis leitores. E alguns um pouco mais visíveis. Estou com um delay de tempo. Minha noção agora é eisteiniana clariciana. Ou seja, é tudo relativo, depende de do ponto de vista do obervador. É quase um instante no átimo do tempo.

Estou jogando conversa fora e dando abobrinha aos animais.

O que eu quero dizer é: li agora a pouco uma notícia da Folha Online, me repassada por Diana Moura que me deixou bem curioso. E não é que Tom Waits pode dar vida a dragão em versão cinematográfica de O Hobbit.

Ok! Não é minha intenção ficar copiando e colando notícias de outros blogs para postar aqui. Mas em se tratando de Tom Waits, vale a pena a divulgação. Na verdade, a notícia em primeira mão saiu no The Guardian.

Eis o que diz a Folha Online citando o The Guardian, citado agora por mim:

O cantor e compositor norte-americano Tom Waits pode enfrentar o pequeno hobbit Bilbo Baggins no próximo filme de Guilhermo del Toro. Segundo o jornal “The Guardian”, Waits está negociando para representar a voz de Smaug, um grande dragão vermelho que coleciona tesouros e se apossa do Reino sob a Montanha, que pertencera aos antepassados do anão Thórin, Escudo de Carvalho.

 Tom Waits já participou de outros filmes, como Drácula e O Mundo Imaginário de Dr. Parnassus, mas nada parecido com o personagem criado por J. R. R. Tolkien. Ele seria uma das primeiras opções de Del Toro e estariam negociando o papel.

(Aqui eu acrescento: no currículo de Tom Waits constam ainda interpretações sempre marcantes em produções como The Bear Skin (talvez seu primeiro papel como protagonista), Brincando nos Campos do Senhor e Ironweed, Down by Law, Short Cuts, Mistery Men, The Outsiders, Coffee and Cigarettes, e menos importantes como em One from the Heart.) 

O Hobbit” teve o início de suas filmagens adiado para 2010, por conta de uma batalha judicial, e será dividido em duas partes, com o primeiro previsto para dezembro de 2011. Peter Jackson, diretor de O Senhor dos Anéis e produtor deste longa, afirmou ao Hollywood Repórter que iniciaria a busca pelos atores esta semana, com exceção de Ian McKellen, que todos querem de volta como Gandalf.

Na trama do livro, Bilbo Baggins é arrastado para uma jornada para atravessar a Terra Média pelo mago Gandalf e treze anões. O grupo deseja resgatar um reino anão que foi usurpado na Montanha Solitária. Durante o caminho, encontrarão trolls, orcs e outras criaturas sinistras que começam a perturbar a paz, inclusive Gollum, que perde para Bilbo um misterioso anel em um jogo de adivinhas. Este evento dará origem aos acontecimentos vividos por Frodo e a sociedade na Trilogia do Anel.

E aqui se encerra o texto da Folha Online.

Acrescentaria um comentariozinho meio idiota: os fãs de Tolkien e de O Senhor dos Anéis já devem estar perdendo o sono.

Confissão, perdão

novembro 16, 2009

Peço perdão aos meus raríssimos leitores pela longa ausência. É triste saber que nada mudou – ou se mudou, não foi algo tão intenso assim.

Confessso que fraquejei. Eu vinha até bem, com o entusiasmo dos principantes, blogando e blogando. Mas aí teve um dia que fiquei sem tempo, no outro saí para bater papo e beber, viajei para Salvador, Santa Catarina e São Paulo, me perdi nas minhas coisas comesinhas  e o pobre coitado do Pra que pra nada foi ficando esquecidinho.

Tantas promessas feitas e não cumpridas, tantas coisas para postar e compartilhar…

A vida é assim. Feita de promessas que não se cumprem, de um futuro que a gente sonha, deseja, mas quando vê, não almeja. Ou se almeja era melhor quando sonhado. Reflexões de botequim? Talvez.

Vamos em frente, sem muito mas, mas, mas…. Ou seria sem muito mais mais mais?

 

Marcelop

Acuda-me, Dr. House

setembro 29, 2009
Cuddy bem que poderia curar House, mas ele não quer, o doente.

Cuddy bem que poderia curar House, mas ele não quer, o doente.

Enquanto a nova temporada de House não começa,  vamos matando a saudade revendo alguns episódios do passado.

House é doente porque quer. Viciadaço em Vicodin, o tadim bem que poderia se curar. Terapia não lhe falta. Eis a receita do Dr. Marcelop, charlatão de primeira hora: Lisa Edelstein.

A 13 até toparia ser o santo remédio. Quem duvida?

A 13 até toparia ser o santo remédio. Quem duvida?

É preciso ter muita ética, não é House?

É preciso ter muita ética, não é House?

A 13 seria uma dose dupla. House não precisa nem muita dedução ou investigação. Olívia Wilde tem saúde para dar e ainda sobra.

Será que os produtores da série vão mexer um pouco na estrutura, vão dar mais um gás nas histórias e aproximar mais as tramas entre os médicos? E o que Hugh Lurie tem que fazer para Gregory House lhe dar um prêmio?

Cuddy bem que tenta curar House de seus males. Mas o mala não quer ser curado

Anticristo: benzadeus

setembro 21, 2009

Vioentamente belo, perturbador, chocante, doloroso. Acabo de sair de uma sessão de Anticristo, de Lars von Trier. Não é filme para qualquer um e ainda vai render muita discussão entre os cinéfilos e os psis.

A história é simples: um casal faz sexo apaixonadamente e não vê o filho deixar o berço e se jogar pela janela na neve. A mãe não supera o luto jamais e se culpa. O marido, que é terapeuta, resolve ajudá-la através de uma terapia cognitiva, levando-a a enfrentar seus medos, refugiados numa cabana no meio da floresta. Simples assim. A forma como Von Trier desenvolve o roteiro é que são elas.

A natureza é má, violenta e bela

A natureza é má, violenta e bela

 

“A natureza é má”. Esse pensamento passou pela cabeça perturbada de Von Trier, que vivia uma depressão quando escreveu o roteiro do filme, segundo disse em Cannes, onde causou polêmica. E se a natureza é má, a culpa é de Satã, poderia completar. 

Resolvendo essa equação, pode-se que concluir que quem criou a natureza não foi Deus. Se a natureza é má, o destino é cruel e a culpa não tem fim.

Realidade e pesadelo se confundem em Anticristo. Lars von Trier flagela seus personagens e o público. Mutila-os, violenta-os sexualmente em meio a dor, ao luto e ao desespero.

 O sexo é explicito. Principalmente para a mãe, ele é vinculado à morte, ao sacrifício. E tudo isso com uma beleza plástica da fotografia que cria um clima desconcertante. Muitos questionamentos ficam zunindo dentro da cabeça, horas depois.

Anticristo é no mínimo uma experiência antropológica interessante. E uma prova de fogo para os sentidos – e o juízo. Algumas pessoas foram ao cinema ver o último filme do diretor dinamarquês atraídos pelo título e pela sinopse.

As reações foram as mais diversas. Um trio de adolescente não aguentou nem meia hora de projeção. Eles deveriam querer com um pouco de susto. Talvez achassem que iam ver um terror qualquer, alguma coisa na linha O exorcista. Durante o filme, as reações foram as mais diversas. Nas sequências de mutilação sexual as reações foram as mais histéricas.

O mais absurdo de tudo foi um camarada, bem na minha frente, que não estava curtindo muito o alto grau de paranoia do filme, nem o timing da narrativa, e se distraía jogando Tetris no celular.

Na saída, uns gatos pingados aplaudiram. Outros saíram atônitos. “Nunca mais eu deixo você escolher um filme”. “Era melhor ter ficado em casa assistindo novela”. “Esse cara é maluco, fumou maconha estragada”. Eis as frases que ouvi ao deixar a sala 5 do UCI.

Charlotte Gainbourg tem um desempenho impressionante. Não é à toa que ganhou o prêmio de interpretação em Cannes. Willian Dafoe também está perfeito, embora o filme não tenha sido feito para ele. E sim para ela, que faz o papel de uma pesquisadora. Seu objeto de pesquisa: o “feminicídio”.

“Deixe-me chorar pelo meu destino cruel (…), que a dor possa romper os laços da minha angústia”.

Da ópera Rigoleto, de Handel, cantada no prólogo do filme

Marcelop

Allegro flutuante

setembro 15, 2009
Jéssica não me conhecia pessoalmente, mas gostou do poema e deu este presente

Jéssica não me conhecia pessoalmente, mas gostou do poema e deu este presente

 

Allegro Flutuante



Só o músico com seu violino florido
descobriu a melodia que embala
o silêncio desta paisagem

Só o músico com seu violino florido
sabe tecer variações para um rio
adormecido – Capibaribe

Somente ele lê a partitura dos sonhos
As águas do rio, o silêncio, o vento
e um violino florido

O músico e nada mais
além da melodia
        allegro
        flutuante
        entardecido

In Tatuagem, de Marcelo Pereira, Edições Bagaço/IMC

Noturno do Recife

setembro 11, 2009

 

Marcelo Pereira

 

Aproveitou a chuva forte que caíra de repente para entrar no bar. Escolheu um canto do balcão, que já lhe fora um velho aconchego. Estranhou a nova decoração, mais impessoal, de self-service. Pediu uma dose de conhaque e uma coca-cola. Estava encharcado da noite recifense – e julho já chegava ao fim. Se mirou no espelho, enxugou o rosto com guardanapos de papel e bebeu um trago, sem careta. Pediu cerveja. Se virou para a porta do bar e viu, de costas, uma figura que lhe parecia conhecida. Não tinha vontade de puxar papo. Era um antissocial por natureza. Talvez por timidez. Buscou um pouco pela memória para tentar se lembrar da última vez que a viu. E recordou que também não se falaram, como naquela noite. Se vira então garoto, rapazote, nervoso, o coração explodindo no peito. Entrara no bar para tomar um gole de qualquer coisa para ver se a ansiedade passava. Daquela vez, pediu cachaça. Andara apressado, atravessara de um só fôlego a ponte que liga o Recife antigo ao Bairro de Santo Antônio, para encontrar os amigos e pegar ônibus bacurau que o levaria de volta para casa. Tinha sido a sua primeira ida à zona. A primeira vez, ou melhor, a primeira tentativa de fazer amor (pensava assim: fazer amor, e não: fazer sexo). Ah, se tivesse sido com ela… Não teria sido tão difícil, tão amargo… Se mirou no espelho e deu um riso com um canto dos lábios. Recordou: quase esbarrou naquela morena de corpo arrebatador e pecaminoso.

Agora, com a jaqueta jeans ainda pingando, os óculos meio embaçados, olhava seu rosto e via as cicatrizes daquela vida desregrada. Naquela outra noite estava ansioso por reencontrar os amigos e contar da sua aventura, e ofegava enquanto eles ainda não tinham cruzado a ponte ­ estariam na boate Chanteclair? Teriam conseguido entrar na Black Tie? Ou foram se desorientar na Orion? ­ pensava e pensava, nomes enevoados na memória.

Desta vez mergulhava profundamente no silêncio em primeira pessoa, retardava o máximo a volta para casa não mais no subúrbio distante, mas um apartamento luxuoso na zona sul. Enquanto bebia vagarosamente o gole de cerveja, lembrou como superara seus traumas de aluno de colégio religioso, a pressão para que fizesse parte dos grupos que desenvolviam atividades nas comunidades carentes e do assédio para que entrasse na congregação ou fosse seduzido pelas histórias exemplares que lhe contavam. Na verdade, desconfiava que tudo aquilo não passava de uma cantada – ouvia dos mais velhos que os irmãos (era assim que se chamavam os religiosos) eram homossexuais, pederastas, com exceção de um ou dois que quebraram o voto de castidade e – dizem – um teve caso um uma aluna e ou outro com a mãe de outro colega e com uma professora. Embora alguns de seus colegas sejam hoje jornalistas, escritores, atores ou cineastas, nenhum deles teve a coragem de passar aquelas histórias a limpo. Quem sabe não seria um bom motivo para uma crônica, pensou. Mas ele não tinha vocação nem veleidades literárias. Isto era coisa do passado, do final da adolescência, quando achava que as ruas do Recife eram azuis e tinham o desespero blues que conduzia ao abismo das paixões.

Estava absorto em pensamentos que mesclavam o passado e o presente. Na boca, o gosto travoso do álcool e de bílis. Pediu outra casadinha de conhaque e coca-cola e uma porção de bolinho de bacalhau, um dos poucos tira-gostos da época do português que o novo dono do bar ainda vendia – sem o mesmo capricho no tempero e textura de antes. Rebateu com outra cerveja. Enquanto contava o dinheiro e olhava a foto dos dois filhos na carteira, tomou um susto, quando aquela voz lhe sussurrou, por detrás do pescoço: “Vamos fazer um programa, meu amor”.

Ele não quis virar o rosto, não levantou a cabeça. Enrubesceu. Procurou responder com um “não”, simplesmente um “não”. A voz embargou. Não se perdoava até hoje pela sua covardia e não admitia levar a culpa pelo destino da morena Mariana, que conhecera, ainda garota, trabalhando numa loja de cosméticos, vendendo perfumes e batons. “Deixa disso meu amor. Esquece o passado. Estou apenas brincando com você”. Ela disse, amarga e amável. “A cicatriz que você deixou não vai apagar jamais”.

A morena abaixou o decote. Ainda tinha belos seios para uma mulher com seus 40 anos e que caiu na prostituição aos 16, expulsa da casa dos pais, evangélicos. Mostrou os dois nomes tatuados no peito – Duílio e Bernardo. Ele leu o seu nome e o do filho – que ela fora obrigada a abortar. Logo abaixo, a cicatriz da facada que quase acertou o coração de Mariana, naquela noite enlouquecida de ciúme.

– Eu sou um filho da puta. Um fodido, Mariana. Você não entende isso – disse deixando o dinheiro sobre o balcão, desparecendo mais uma vez na chuva impiedosa.

P.S.: Publicado originalmente na Revista Eita, publicada pela Prefeitura do Recife, através da Fundação de Cultura da Cidade do Recife