Marcelo Pereira
Aproveitou a chuva forte que caíra de repente para entrar no bar. Escolheu um canto do balcão, que já lhe fora um velho aconchego. Estranhou a nova decoração, mais impessoal, de self-service. Pediu uma dose de conhaque e uma coca-cola. Estava encharcado da noite recifense – e julho já chegava ao fim. Se mirou no espelho, enxugou o rosto com guardanapos de papel e bebeu um trago, sem careta. Pediu cerveja. Se virou para a porta do bar e viu, de costas, uma figura que lhe parecia conhecida. Não tinha vontade de puxar papo. Era um antissocial por natureza. Talvez por timidez. Buscou um pouco pela memória para tentar se lembrar da última vez que a viu. E recordou que também não se falaram, como naquela noite. Se vira então garoto, rapazote, nervoso, o coração explodindo no peito. Entrara no bar para tomar um gole de qualquer coisa para ver se a ansiedade passava. Daquela vez, pediu cachaça. Andara apressado, atravessara de um só fôlego a ponte que liga o Recife antigo ao Bairro de Santo Antônio, para encontrar os amigos e pegar ônibus bacurau que o levaria de volta para casa. Tinha sido a sua primeira ida à zona. A primeira vez, ou melhor, a primeira tentativa de fazer amor (pensava assim: fazer amor, e não: fazer sexo). Ah, se tivesse sido com ela… Não teria sido tão difícil, tão amargo… Se mirou no espelho e deu um riso com um canto dos lábios. Recordou: quase esbarrou naquela morena de corpo arrebatador e pecaminoso.
Agora, com a jaqueta jeans ainda pingando, os óculos meio embaçados, olhava seu rosto e via as cicatrizes daquela vida desregrada. Naquela outra noite estava ansioso por reencontrar os amigos e contar da sua aventura, e ofegava enquanto eles ainda não tinham cruzado a ponte estariam na boate Chanteclair? Teriam conseguido entrar na Black Tie? Ou foram se desorientar na Orion? pensava e pensava, nomes enevoados na memória.
Desta vez mergulhava profundamente no silêncio em primeira pessoa, retardava o máximo a volta para casa não mais no subúrbio distante, mas um apartamento luxuoso na zona sul. Enquanto bebia vagarosamente o gole de cerveja, lembrou como superara seus traumas de aluno de colégio religioso, a pressão para que fizesse parte dos grupos que desenvolviam atividades nas comunidades carentes e do assédio para que entrasse na congregação ou fosse seduzido pelas histórias exemplares que lhe contavam. Na verdade, desconfiava que tudo aquilo não passava de uma cantada – ouvia dos mais velhos que os irmãos (era assim que se chamavam os religiosos) eram homossexuais, pederastas, com exceção de um ou dois que quebraram o voto de castidade e – dizem – um teve caso um uma aluna e ou outro com a mãe de outro colega e com uma professora. Embora alguns de seus colegas sejam hoje jornalistas, escritores, atores ou cineastas, nenhum deles teve a coragem de passar aquelas histórias a limpo. Quem sabe não seria um bom motivo para uma crônica, pensou. Mas ele não tinha vocação nem veleidades literárias. Isto era coisa do passado, do final da adolescência, quando achava que as ruas do Recife eram azuis e tinham o desespero blues que conduzia ao abismo das paixões.
Estava absorto em pensamentos que mesclavam o passado e o presente. Na boca, o gosto travoso do álcool e de bílis. Pediu outra casadinha de conhaque e coca-cola e uma porção de bolinho de bacalhau, um dos poucos tira-gostos da época do português que o novo dono do bar ainda vendia – sem o mesmo capricho no tempero e textura de antes. Rebateu com outra cerveja. Enquanto contava o dinheiro e olhava a foto dos dois filhos na carteira, tomou um susto, quando aquela voz lhe sussurrou, por detrás do pescoço: “Vamos fazer um programa, meu amor”.
Ele não quis virar o rosto, não levantou a cabeça. Enrubesceu. Procurou responder com um “não”, simplesmente um “não”. A voz embargou. Não se perdoava até hoje pela sua covardia e não admitia levar a culpa pelo destino da morena Mariana, que conhecera, ainda garota, trabalhando numa loja de cosméticos, vendendo perfumes e batons. “Deixa disso meu amor. Esquece o passado. Estou apenas brincando com você”. Ela disse, amarga e amável. “A cicatriz que você deixou não vai apagar jamais”.
A morena abaixou o decote. Ainda tinha belos seios para uma mulher com seus 40 anos e que caiu na prostituição aos 16, expulsa da casa dos pais, evangélicos. Mostrou os dois nomes tatuados no peito – Duílio e Bernardo. Ele leu o seu nome e o do filho – que ela fora obrigada a abortar. Logo abaixo, a cicatriz da facada que quase acertou o coração de Mariana, naquela noite enlouquecida de ciúme.
- Eu sou um filho da puta. Um fodido, Mariana. Você não entende isso – disse deixando o dinheiro sobre o balcão, desparecendo mais uma vez na chuva impiedosa.
P.S.: Publicado originalmente na Revista Eita, publicada pela Prefeitura do Recife, através da Fundação de Cultura da Cidade do Recife